Profundo desejo de pintar imagens com palavras e jamais esquecê-las. Todas elas, cada uma delas.
Me desculpe por simplesmente me ausentar, sem ao menos dizer nada. Acho que você não entenderia o por quê, talvez porque nem eu mesma saiba traduzi-lo em palavras. Eu apenas sei que isso é o certo, agora.
O problema de se ter amigos tão próximos quanto você era de mim é que, quanto mais perto, mais difícil de se afastar, mas mais necessário se torna. As pessoas crescem. As pessoas mudam. Mudam constantemente e não há nada que possa ser feito à respeito, porque é o curso natural, creio eu. A natureza muda constantemente, seria errado nós permanecermos no mesmo lugar, com os mesmos aspectos e idéias. Nós crescemos muito e mesmo separadas, nós crescemos juntas; cada passo que dei em direção ao que sou hoje, as suas pegadas estiveram bem do lado das minhas, quando não atrás, pra me segurar em todas as vezes em que caí. Você esteve lá com o seu ombro, mãos, carinho e seu grande, lindo e afetuoso coração; sua paciência, pra me explicar. Você apenas esteve lá, por inteiro e de coração aberto pra mim. Acho que nunca houveram barreiras entre você e eu e penso que, talvez, porque você estivesse desenhada em todas as páginas da minha vida, obrigatória e inegavelmente em cada uma delas e eu não posso agradecer menos por isso. Agradecer à você e qualquer outra força maior, ao Efeito Borboleta, que te colocou no meu caminho todas as vezes em que nos separamos. E é triste que eu tenha que simplesmente cortar isso, depois de tudo. Mas eu preciso, muito.
Não queria que isso se tornasse um clichê. Quando digo isso, me refiro à nossa amizade terminar depois de nos vermos, sabe, pessoalmente e tudo. Porque já vi isso acontecer diversas vezes. Mas quero que saiba, acima de tudo, que essa não foi a razão.
Acho que cheguei em um ponto em que me sinto tão perto de você, mas tão perto, que talvez esteja dentro e nem percebi. Consigo sentir suas emoções e feridas em cada célula do meu corpo. E, de alguma forma, isso me dói o dobro. Seu mundo tem desabado a cada dia, todo dia um pouco mais, e tudo isso nos últimos meses e eu sei que eu deveria estar ao seu lado, te fazendo ser forte; te fazendo ser forte por mim e sendo forte por você. Carregando seu mundo nas minhas costas pra aliviar você e seu doce coração. Mas eu não consigo mais. Você parece tão perdida e por mais que eu te guie e te mostre os caminhos, é como se você tivesse virado areia e o pouco que consigo manter entre meus dedos, não é o suficiente pra te manter inteira ou parcialmente no caminho que deveria estar. Você não tem feito escolhas, apenas deslizado nas linhas do tempo e eu sei que isso tem sido horrível pra você, mas tem sido igualmente horrível te olhar assim e não poder fazer nada. E quando faço, simplesmente parece errado ou insuficiente.
Não sei se alguma vez chegou a se sentir assim, e eu sei que sou forte, você sabe por tudo que passei, e eu gostaria que você descobrisse que é tão forte como eu, algum dia, em breve. Porque nós duas somos tão iguais, posso te garantir que cada traço seu e meu foram pintados com a mesma tinta, com o mesmo pincel e o resultado disso sou eu em você e você em mim, e ainda assim, cada uma de um jeito peculiar. Eu deveria estar ao seu lado, porque sei que agora é um momento crucial em sua vida e, talvez me arrependa por não ter estado aí agora, mas não é tempo. Você parece diferente, não consigo te atingir mais, não consigo te manter ao meu lado enquanto caminhamos. E não sei também pra onde você foi ou onde parou ou, ainda, com quem está. E isso é triste. Mas eu preciso de um tempo, você também.
Queria poder te dizer isso, mas não é assim que funciona. Queria dizer pra qualquer um, na verdade, mas a verdade é que eu só tenho você. Sempre tive só você. E isso deveria ser triste, mas não é, porque você tem tudo o que eu preciso, o pouco que necessito. E eu estou bem com isso. O que você tem é só seu e eu não encontro em mais ninguém, talvez essa seja a razão pra eu não ter outra amiga nem confiar em ninguém além de você. Só você entenderia e me guiaria nesse exato momento, mas parece que estamos apenas flutuando no espaço, agora. Em direções opostas, em galáxias distantes uma da outra. Eu sinto muito.
I don’t wanna feel no more, it’s easier to keep falling. Imitations are pale, the emptiness of tomorrows haunted by your ghost. Lay down, black gives way to blue. Lay down, I remember you. Fading out by design, consciously, avoiding changes. Curtains drawn now it’s done, silencing all tomorrows, forcing a good bye. Lay down, black gives way to blue. Lay down, I remember you.
Ou não. Eu havia te deixado segurando minhas coisas e entrei em uma cabine, e então, aquelas garotas começaram a brincar comigo, jogando coisas, espiando. Aquele dia havia começado de um jeito maravilhoso mas não poderia ficar pior do que aquilo.
Errado. Eu havia desistido, deixado a cabine e de repente, você não estava mais lá, apenas minha mochila. Peguei-a e saí daquele banheiro horrível mas não sem algumas garotas me observando, tocando em meus cabelos, ficando paradas entre eu e a porta.
“Por que as pessoas não podem simplesmente ficar na delas?”, eu pensei, o ódio me preenchendo por inteiro.
Eu finalmente saí e eu procurava por você. Não estava louca de raiva, não estava preocupada, mas eu realmente queria saber onde você estava. Eu andei um pouco, ali por perto mesmo, e eu finalmente achei você.
Com algumas garotas.
E você parecia confortável.
Eu me aproximei de você extremamente irritada mas eu segurava minha raiva como quem segurava algo de valor, e você apenas veio com um comentário e um gesto igual ao delas. Aquilo havia feito eu me arrepiar de nervosismo. Eu estava brava, realmente brava.
“Eu quero ir pra casa. Agora”. Pontuado, frio, devagar. E eu comecei a andar e então, vi meu ex-namorado parado, ao fundo, bem distante de você, mas não o suficiente para eu não enxergá-lo. Ele sorria. Sorria com aquele sorriso que eu detestava. Você estava drogado e eu sabia que ele era o responsável. O que mais ele havia feito? Os ladrões também?
Eu senti meu coração afundar bem dentro do meu peito. Meu tórax não era grande o suficiente e ele continuava a inchar, cada vez mais, e eu sentia vontade de vomitar. O mundo a minha volta estava sendo invadido por uma enchente em meus olhos. Via as figuras se afundarem em águas salgadas. Eu era toda lágrimas. Um coração inchado, ar arenoso e lágrimas.
Eu havia esquecido que estar apto a sentir felicidade e amor novamente significava estar apto para sentir tristeza e dor também.
Nós estávamos na plataforma esperando que o ônibus e você me perguntou se eu tinha certeza que eu queria ir pra sua casa porque, se não, você me levaria de volta pra casa ou algo do tipo. Eu pude jurar que, naquele momento em que te ouvi, havia visto você entrar em um ônibus e eu, em outro, nós dois tomando direções opostas e o arrependimento sentado bem ao meu lado no banco, seguindo meus olhos observando você se afastar pra longe, segurando meu coração bem apertado entre seus dedos. Eu parti com meu coração, eu parti sem você.
Nós perdemos nosso ônibus quando eu quase me perdi no túnel cheio de divisões, e eu me senti um pouco culpada porque eu apenas seguia você, mas meus pensamentos me traíam hora ou outra, fazendo eu me perder em suas linhas, no cheiro do seu cabelo, suas mãos bonitas e macias. Mas estava tudo bem pra você. Você, coberto em serenidade, acalmava meus sentimentos bagunçados que ocupavam um pequeno espaço no fundo do meu estômago. Você libertava minhas borboletas.
O próximo ônibus levou um tempo para chegar e você disse que precisava ir ao banheiro. Fui com você e eu estava um pouco preocupada porque o lugar parecia um pouco esquecido pelas autoridades e dominado por tudo que havia de ruim no mundo. Você entrou e eu te esperava do lado de fora quando vi dois homens esperando perto da porta para roubar você. Eu entrei em pânico. Meu coração estava em minha garganta e eu desejava intensamente poder parar o tempo, te levar pra outro lugar, bem, bem longe e então, fazer o relógio andar novamente.
Você saiu e eles vieram pra cima de você enquanto eu apenas observava de longe, petrificada em medo, sentindo meu coração arder, não do jeito que você fazia, mas sim de um modo que fazia eu me sentir mal. Mas de alguma forma, você estava calmo e alguns segundos depois, eles saíram, te deixado intocado. Você… parecia conhecê-los, apenas. Me senti aliviada mas meu coração precisava de uns minutos. Te peguei pela mão e te puxei para o banheiro feminino, apenas pra ter certeza que você ficaria bem e meu coração também.
Surpresa. O banheiro estava cheio de garotas do gueto, seus cabelos parecendo um arco-íris quando colocado juntos. Elas conversavam bem alto e pareciam conhecer umas as outras. Mas de alguma forma, eu sabia que seria melhor do que você ficar lá fora.
Hora de ir. Você perguntou pra mim se eu queria ir pra sua casa e esperar até que os ônibus estivessem passando novamente para que eu pudesse voltar pra minha. Não foi como se você realmente precisasse perguntar, pelo menos não em minha mente, porque o que você quisesse, eu tinha certeza que quereria também, de um jeito esquisito, mas era bem por aí.
Nós estávamos deixando o parque e você falava alguma coisa comigo mas eu estava perdida no emaranhado dos meus pensamentos, olhando fixamente pra você, o que provavelmente te deu a impressão de que eu realmente prestava atenção. E não era como se eu não prestasse, eu ouvia, mas eu mais via do que ouvia. E era igualmente maravilhoso, sua voz como uma melodia em meus ouvidos. Talvez tenha me perdido nas imagens por isso também. Olhava pra você e pensava o quão alto você era e como eu não poderia amar isso menos, porque eu sabia que quando você me segurasse em seus braços, você estaria me protegendo por inteiro. Você era meu coração naquele momento e eu era o seu. Eu não poderia estar mais lisonjeada com essa responsabilidade. Pela primeira vez, eu não pensava se eu te machucaria, porque você me inspirava o meu melhor, me fazia querer ser o meu melhor.
Você me perguntou se eu estava escutando o que você dizia e então o vento passou por entre os fios de meu cabelo, jogando-os por todo o meu rosto. Eu sabia que meus olhos brilhavam, a luz do sol vindo em nossa direção, aquele calorzinho de início de manhã. Mas eles refletiam a sua energia. E então, eu olhei seu rosto, como se eu pudesse ler seus pensamentos ou algo do tipo e naquele momento, pra você, eu estava passando em slow motion. O vento em meu cabelo, você nos meus olhos. Eu vesti o meu melhor sorriso naquele exato momento e um pouco da cor vermelha se apossou de minhas bochechas e eu me senti um pouco envergonhada. Eu sabia que você não poderia me amar menos naquele exato momento.
O sol estava nascendo e nós estávamos sentados com nossos amigos no parque, apenas jogando conversa fora, alguém tocava um violão ao fundo, algumas latas de cerveja no chão. Que noite maravilhosa. Meu coração estava em pólvora, preparado para queimar no amor que você havia injetado em minhas veias, algumas horas antes.
Meu ex-namorado estava me irritando o dia inteiro sobre voltarmos a ficar juntos e isso estava realmente arruinando meu dia. Eu estava cansada, emocionalmente cansada de tudo aquilo; eu queria alguém pra me amar e me fazer sentir o que o amor realmente é, o qual eu havia esquecido há um longo tempo atrás e mal podia me lembrar de como era senti-lo.
Então você apareceu com seu jeito tranquilo, sua expressão calma, seus olhos amorosos e tudo sobre você era tão relaxante e “querível” que eu mal pude perceber que eu estava em um outro lugar, com meu coração pulsando bem vivo em meu peito, depois de anos de tristeza e escuridão. Você me perguntou se eu queria dar uma volta com você, seu sorriso branco e tímido, macio como seu coração que eu poderia jurar que conseguia sentir sua textura. E eu não recusei. Suas palavras eram comuns, mas um quê de envolvente estava bordado ao pé das letras das palavras que sua boca proferia, e aquilo parecia se enrolar em volta de meu corpo, me guiando por qualquer caminho que fosse, que por fim, terminavam sempre em você.
Nós paramos na barraquinha de milkshake do Joe e você brincava levemente com o canudo em seus lábios e eu só conseguia te observar, deslumbrada por tudo aquilo. A noite estava firme, o céu limpo e os enfeites da festa no parque brilhavam o suficiente pra fazer qualquer um se sentir em casa. Você me ofereceu um e eu apenas sorri, fazendo um gesto com a mão ao recusar. Segurava minha jaqueta em meus braços cruzados e eu não sei quanto tempo se passou, mas a verdade é que eu poderia te olhar por toda a eternidade. Eu me sentia bem, me sentia tranquila, como se estivesse, sim, nas nuvens. Eu me perdia no brilho que a sua alma refletia, uma luz em volta do seu corpo. E eu sabia, naquele momento, que nós estávamos ligados a um pedaço de mundo novo, um mundo que nós provavelmente íamos criando aos poucos, sempre que nos olhávamos, naquelas poucas palavras ditas e nos gestos pequenos. E isso criava esse mundo paralelo devagar pra que estivesse pronto quando nós estivéssemos prontos.
Todo mundo que estava parando pra falar com você - aparentemente alguns rumores já percorriam pelo enorme gramado verde do parque - perguntava sobre sua namorada e você gentilmente apontava para mim enquanto permanecia deitado sobre meu corpo, eu sentada numa cadeira e suas pernas no banco logo à frente. Todo esse tecido macio em volta do meu coração, me fazendo confortável para segurá-lo perto de mim tão livremente, que eu mal podia conter meus sentimentos como eu sempre fazia. Eles estavam fluindo na velocidade certa, tendo certeza de que cada célula do meu corpo estava recebendo a verdadeira felicidade e o amor puro que você transferia pra mim. Eu queria apertá-lo apenas para senti-lo mais forte em meus ossos, mas eu sabia que não podia, eu não o faria porque você parecia saber exatamente o que fazer enquanto me dava todos esses sentimentos.
Preciso de um conserto que ninguém pode me dar. Um conserto que eu não sei se existe, mas que eu procuro por razões diferentes em tempos diferentes. Então eu corro, corro sentindo o suor escorrendo pelo meu rosto, as pernas fatigando e os pés calejando; corro dentro da minha mente, porque os fantasmas dentro dela me perseguem e não é como se eu pudesse fugir. Mas posso retardar o tempo em que dividimos uma mesma sinapse, e então eu posso seguir na linha do superficial, fingindo que tudo está bem. Ou até mesmo sendo verdadeira, porque tudo está bem. Só não está quando eu tenho que lidar com o que eu não gosto, com o que eu evito, com o que não pertence a mim. Quando tenho que lidar com o sentimento alheio. Então eu corro, corro de novo e de novo. Me machuco ao ver que machuquei, mas coloco essa venda velha nos olhos e tudo ficará bem. Se não ficar, eu corro novamente. Algumas vezes, realmente fica bem, mas não sem alguns buracos. E pra mim está tudo bem. Acho. Não. Porque mesmo estando quebrada, eu ainda posso ver a dor que eu infrinjo àqueles que eu me importo e eu simplesmente não consigo mais suportar. Não mais. Então eu corro. Todas as vezes. Sempre.
"The Buddha has a story about the four horses — the excellent horse, the good horse, the regular horse and the poor horse. Obviously the excellent horse knows how to run before the whip is even lifted, but the poor horse has to feel it in the marrow of his bones before he runs. That’s kind of what we have. The poor horse is actually the one that gains the most from practice because they have to feel it all the way through their being. So maybe they’ll learn something from this."
― Phil Jackson on the Lakers play (via foreverla)